terça-feira, 22 de junho de 2010




Em 1953 Cecília Meireles fez uma viagem à Europa em companhia de seu marido, professor Heitor Grillo. A viagem começou por Roma, Cecília chegou de avião no começo de março e sua excursão foi até o final de abril. A poetisa seguiu o seguinte itinerário: Roma – Nápoles – Pompéia – Sorrento – Salerno – Roma – Florença – Pistoia – San Gimignano – Siena – Pisa – Veneza – Milão. A maior parte da viagem foi feita de automóvel com seus amigos (BIZZARRI, 1968, p. 5).

Nesta viagem Cecília escreveu quarenta poemas nas salas e quartos de hotéis, durante o curto período em que permaneceu naquele país. Estes poemas foram traduzidos para o italiano por Edoardo Bizzarri na edição bilíngüe feita pelo Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro em 1968. De todos há um que chama a atenção pela simplicidade e delicadeza, características típicas da poetisa: o poema “Mensagem” – “Messaggio” – (MEIRELES, 1968, p. 112). Chama a atenção não só pela simplicidade, mas porque foge do estereótipo e dos rótulos que foram aplicados a Cecília, como por exemplo, a de que ela é uma poetisa que apenas escreve sobre a efemeridade da vida e a fugacidade do tempo (AZEVEDO FILHO, 1970, p. 35; 39; 49).

Neste poema ela fala sobre um possível e curioso acontecimento em sua passagem pela cidade de San Gimignano, província de Siena, na Toscana. Esse acontecimento, para qualquer outra pessoa, seria banal, mas com Cecília, criatura sensível que era, ganhou uma poeticidade digna da criação de um poema do qual a própria poetisa diz guardar muita saudade:

Por Fabiano da Silva Costa

(UNESP-Assis)



Mensagem

Agora tenho saudade daquele anônimo guia
que na Itália me acompanhou a uma festa popular.
Mulheres robustas gritavam com força: "Ecco, ecco,
é Giuseppe!"

"No, si, no, si..."
quando o cantor apareceu, com roupas do século 14.

O guia, meigo e triste, delicadamente sentou-se a
meu lado,
verificou se a minha cadeira estava firme,
depois, fitou com melancolia o espetáculo no pátio do castelo.

Então delicadamente, lhe estendi um saco de balas,
para que se servisse.
Mas docemente levou a palma da mão ao queixo,
e murmurou com extrema gentileza: "No, grazie..."
e, mais baixinho, acrescentou "que tinha um dente furado, e doía muito..."

Vai para esse guia sincero,
perdido entre as tôrres de São Giminiano,
a minha tenra, humana saudade:
- nunca ninguém me fêz tão pura e simples confidência.


Messaggio

Adesso ho nostalgia di quell'anonima guida
che in Itália m'accompagnò a una festa popolare.
Donne robuste gridavano forte: "Ecco, ecco, è Giuseppe!"
"No, si, no, si..."
quando ill cantante apparve, com vestido del secolo XIV.

La guida, gentile e triste, delicatamente, mi sedette vicino,
s'accertò che la mia sedia fosse ben ferma,
poi, fissò con malinconia lo spettacolo, nel cortile del castello.

Allora, delicatamente, gli porsi il sacchetto delle caramelle,
perchè se servisse,
Ma dolcemente portò la palma della mano al mento,
e mormorò con estrema gentilezza: "No, grazie..."
e, più basso, aggiunse "che avera un dente cariato,
e gli faceva molto male..."

Vada a quella guida sincera,
perduta tra le torri San Gimignano,
la mia tenera, umana nostalgia
- mai nessuno mi fece cosi pura e semplice confidenza.


versão Italiana, Edoardo Bizzarri
(do livro Cecilia Meireles - Poemas Italianos, São Paulo, Instituo Cultural Italo Brasileiro)

segunda-feira, 21 de junho de 2010



Tu ficas com tudo
E me deixas nu e errante pelo mundo
Mas eu te deixo mudo... mudo!

(León Felipe)

foto: o. guisoni

sábado, 19 de junho de 2010



jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

(Paulo Leminski)

foto: o. guisoni

sexta-feira, 18 de junho de 2010



Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala.

(José Saramago)

Nascimento: 16 de Novembro de 1922
Azinhaga, Golegã, Portugal

Morte: 18 de Junho de 2010 (87 anos)
Lanzarote,Canárias, Espanha

Nacionalidade: Português

Ocupação: Romancista, contista, dramaturgo, poeta

Principais trabalhos: Memorial do Convento; O Evangelho segundo Jesus Cristo; Ensaio sobre a Cegueira …

Prêmios: Nobel de Literatura (1998)

Página oficial: http://www.josesaramago.org


fonte da imagem:: internet


*Festas Juninas*

Junho é o mês dos folguedos
Não solte balão nas cidades
Há bolos quadrilhas brinquedos
Cantigas pra todas idades
Até na quadrilha infantil
A dança remexe o quadril

Há milho assado cheirando
Canjica, tapioca, cuscuz,
E todos dançando, cantando,
Ao redor da fogueira a luz
Aplausos por todos os lados
Festejando casais namorados

O sanfoneiro tocando
Corpos suados que riem
A noiva aparece chorando
O noivo fugiu, que agonia.
O padre chegando insiste
Vem logo juiz, não despiste

O moço volta assombrado
Tiroteio ressoa no ar
O sim dado de bom grado
A noiva sorrir sem falar
O resto é só festança
Até quando o sol apontar

(Sogueira)

foto: o. guisoni

Sr. do Pandeiro (Mr. Tambourine Man - Bob Dylan)

(tradução)

Ei! Sr. do Pandeiro, toque uma canção para mim,
Não estou com sono nem estou indo a lugar nenhum.
Ei! Sr do Pandeiro, toque uma canção pra mim,
Nesta manhã melodiosa e desafinada eu irei de seguir.

Embora eu saiba que aquele império noturno voltou a ser areia,
Desapareceu de minha mão,
Deixou-me aqui de pé parado, mas ainda sem dormir,
Minha franqueza me impressiona, meus pés foram marcados a ferro,
Não tenho ninguém para encontrar
E a rua antiga vazia está morta demais para sonhar
Ei! Sr do Pandeiro, toque uma canção para mim,
Eu não estou com sono, nem há lugar para onde ir.

Leve-me numa viagem em sua mágica embarcação
Meus sentidos foram estraçalhados,
Minhas mãos não sentem para agarrar...
Meus dedos estão muito amortecidos para pisar,
Esperam somente que os saltos de minhas botas se ponham a caminho

Estou pronto para ir a qualquer lugar,
Estou pronto para desaparecer
Em direção ao meu próprio desfile,
Faça seu encanto de bailarina em mim,
Prometo me submeter por inteiro.

Nesta manhã de som metálico eu irei segui-lo
Embora você possa ouvir risos, girar,
Balançando loucamente através do sol,
Isto não está apontado para ninguém,
E exceto no céu , não há cercas na frente.
E se você ouvir traços vagos de carretéis de rimas saltitantes
Pare o seu pandeiro a tempo,
É só um palhaço esfarrapado, que está vindo atrás.
Eu não me preocuparia, é só uma sombra que você
Está vendo que ele vem perseguindo.

Depois me faça desaparecer nos anéis de fumaça de meu pensamento,
Abaixo das ruínas esfumaçadas do tempo, bem longe as folhas congeladas.
As árvores assombradas, amedrontadas, fora da praia com vento,
Longe do alcance retorcido do sofrimento louco.
Sim, dançar debaixo do céu de diamantes
Abanando com uma mão livre,
Cercada pelo mar, circulada com as areias de circo.
Com todas as lembranças e o destino
Mergulhando fundo em baixo das ondas,
Deixe-me esquecer hoje até amanhã.


Mr. Tambourine Man (Bob Dylan)

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Though I know that evenin’s empire has returned into sand
Vanished from my hand
Left me blindly here to stand but still not sleeping
My weariness amazes me, I’m branded on my feet
I have no one to meet
And the ancient empty street’s too dead for dreaming

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Take me on a trip upon your magic swirlin’ ship
My senses have been stripped, my hands can’t feel to grip
My toes too numb to step
Wait only for my boot heels to be wanderin’
I’m ready to go anywhere, I’m ready for to fade
Into my own parade, cast your dancing spell my way
I promise to go under it

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Though you might hear laughin’, spinnin’, swingin’ madly across the sun
It’s not aimed at anyone, it’s just escapin’ on the run
And but for the sky there are no fences facin’
And if you hear vague traces of skippin’ reels of rhyme
To your tambourine in time, it’s just a ragged clown behind
I wouldn’t pay it any mind
It’s just a shadow you’re seein’ that he’s chasing

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Then take me disappearin’ through the smoke rings of my mind
Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves
The haunted, frightened trees, out to the windy beach
Far from the twisted reach of crazy sorrow
Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands
With all memory and fate driven deep beneath the waves
Let me forget about today until tomorrow

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Do Livro: POESIA E POLÍTICA NAS CANÇÕES DE BOB DYLAN E CHICO BUARQUE

Ligia Vieira Cesar

quarta-feira, 16 de junho de 2010


O Sabiá e o Gavião (Patativa do Assaré)

Eu nunca falei à toa.
Sou um cabôco rocêro,
Que sempre das coisa boa
Eu tive um certo tempero.
Não falo mal de ninguém,
Mas vejo que o mundo tem
Gente que não sabe amá,
Não sabe fazê carinho,
Não qué bem a passarinho,
Não gosta dos animá.

Já eu sou bem deferente.
A coisa mió que eu acho
É num dia munto quente
Eu i me sentá debaxo
De um copado juazêro,
Prá escutá prazentêro
Os passarinho cantá,
Pois aquela poesia
Tem a mesma melodia
Dos anjo celestiá.

Não há frauta nem piston
Das banda rica e granfina
Pra sê sonoroso e bom
Como o galo de campina,
Quando começa a cantá
Com sua voz naturá,
Onde a inocença se incerra,
Cantando na mesma hora
Que aparece a linda orora
Bejando o rosto da terra.

O sofreu e a patativa
Com o canaro e o campina
Tem canto que me cativa,
Tem musga que me domina,
E inda mais o sabiá,
Que tem premêro lugá,
É o chefe dos serestêro,
Passo nenhum lhe condena,
Ele é dos musgo da pena
O maiô do mundo intêro.

Eu escuto aquilo tudo,
Com grande amô, com carinho,
Mas, às vez, fico sisudo,
Pruquê cronta os passarinho
Tern o gavião maldito,
Que, além de munto esquisito,
Como iguá eu nunca vi,
Esse monstro miserave
É o assarsino das ave
Que canta pra gente uví.

Muntas vez, jogando o bote,
Mais pió de que a serpente,
Leva dos ninho os fiote
Tão lindo e tão inocente.
Eu comparo o gavião
Com esses farão cristão
Do instinto crué e feio,
Que sem ligá gente pobre
Quê fazê papé de nobre
Chupando o suó alêio.

As Escritura não diz,
Mas diz o coração meu:
Deus, o maió dos juiz,
No dia que resorveu
A fazê o sabiá
Do mió materiá
Que havia inriba do chão,
O Diabo, munto inxerido,
Lá num cantinho, escondido,
Também fez o gavião.

De todos que se conhece
Aquele é o passo mais ruim
É tanto que, se eu pudesse,
Já tinha lhe dado fim.
Aquele bicho devia
Vivê preso, noite e dia,
No mais escuro xadrez.
Já que tô de mão na massa,
Vou contá a grande arruaça
Que um gavião já me fez.

Quando eu era pequenino,
Saí um dia a vagá
Pelos mato sem destino,
Cheio de vida a iscutá
A mais subrime beleza
Das musga da natureza
E bem no pé de um serrote
Achei num pé de juá
Um ninho de sabiá
Com dois mimoso fiote.

Eu senti grande alegria,
Vendo os fíote bonito.
Pra mim eles parecia
Dois anjinho do Infinito.
Eu falo sero, não minto.
Achando que aqueles pinto
Era santo, era divino,
Fiz do juazêro igreja
E bejei, como quem bêja
Dois Santo Antõi pequenino.

Eu fiquei tão prazentêro
Que me esqueci de armoçá,
Passei quage o dia intêro
Naquele pé de juá.
Pois quem ama os passarinho,
No dia que incronta um ninho,
Somente nele magina.
Tão grande a demora foi,
Que mamãe (Deus lhe perdoi)
Foi comigo à disciprina.

Meia légua, mais ou meno,
Se medisse, eu sei que dava,
Dali, daquele terreno
Pra paioça onde eu morava.
Porém, eu não tinha medo,
Ia lá sempre em segredo,
Sempre. iscondido, sozinho,
Temendo que argúm minino,
Desses perverso e malino
Mexesse nos passarinho.

Eu mesmo não sei dizê
O quanto eu tava contente
Não me cansava de vê
Aqueles dois inocente.
Quanto mais dia passava,
Mais bonito eles ficava,
Mais maió e mais sabido,
Pois não tava mais pelado,
Os seus corpinho rosado
Já tava tudo vestido.

Mas, tudo na vida passa.
Amanheceu certo dia
O mundo todo sem graça,
Sem graça e sem poesia.
Quarqué pessoa que visse
E um momento refritisse
Nessa sombra de tristeza,
Dava pra ficá pensando
Que arguém tava malinando
Nas coisa da Natureza.

Na copa dos arvoredo,
Passarinho não cantava.
Naquele dia, bem cedo,
Somente a coã mandava
Sua cantiga medonha.
A menhã tava tristonha
Como casa de viúva,
Sem prazê, sem alegria
E de quando em vez, caía
Um sereninho de chuva.

Eu oiava pensativo
Para o lado do Nascente
E não sei por quá motivo
O só nasceu diferente,
Parece que arrependido,
Detrás das nuve, escondido.
E como o cabra zanôio,
Botava bem treiçoêro,
Por detrás dos nevoêro,
Só um pedaço do ôio.

Uns nevoêro cinzento
Ia no espaço correndo.
Tudo naquele momento
Eu oiava e tava vendo,
Sem alegria e sem jeito,
Mas, porém, eu sastifeito,
Sem com nada me importá,
Saí correndo, aos pinote,
E fui repará os fiote
No ninho do sabiá.

Cheguei com munto carinho,
Mas, meu Deus! que grande agôro!
Os dois véio passarinho
Cantava num som de choro.
Uvindo aquele grogeio,
Logo no meu corpo veio
Certo chamego de frio
E subindo bem ligêro
Pr’as gaia do juazêro,
Achei o ninho vazio.

Quage que eu dava um desmaio,
Naquele pé de juá
E lá da ponta de um gaio,
Os dois véio sabiá
Mostrava no triste canto
Uma mistura de pranto,
Num tom penoso e funéro,
Parecendo mãe e pai,
Na hora que o fio vai
Se interrá no cimitéro.

Assistindo àquela cena,
Eu juro pelo Evangéio
Como solucei com pena
Dos dois passarinho véio
E ajudando aquelas ave,
Nesse ato desagradave,
Chorei fora do comum:
Tão grande desgosto tive,
Que o meu coração sensive
Omentou seus baticum.

Os dois passarinho amado
Tivero sorte infeliz,
Pois o gavião marvado
Chegou lá, fez o que quis.
Os dois fiote tragou,
O ninho desmantelou
E lá pras banda do céu,
Depois de devorá tudo,
Sortava o seu grito agudo
Aquele assassino incréu.

E eu com o maiô respeito
E com a suspiração perra,
As mão posta sobre o peito
E os dois juêio na terra,
Com uma dó que consome,
Pedi logo em santo nome
Do nosso Deus Verdadêro,
Que tudo ajuda e castiga:
Espingarda te preciga,
Gavião arruacêro!

Sei que o povo da cidade
Uma idéia inda não fez
Do amô e da caridade
De um coração camponês.
Eu sinto um desgosto imenso
Todo momento que penso
No que fez o gavião.
E em tudo o que mais me espanta
É que era Semana Santa!
Sexta-fêra da Paixão!

Com triste rescordação
Fico pra morrê de pena,
Pensando na ingratidão
Naquela menhã serena
Daquele dia azalado,
Quando eu saí animado
E andei bem meia légua
Pra bejá meus passarinho
E incrontei vazio o ninho!
Gavião fí duma égua!

foto: o. guisoni

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Taikô




O taikô é um instrumento de percussão, cuja superfície é confeccionada com pele de animal. É tocada com a mão ou com o uso de uma baqueta, mas sempre exige do músico a habilidade rítmica e o preparo físico para sustentar batidas homogêneas e obter som satisfatório.

Foram encontrados bonecos “haniwa”do século V, feitos em terracota que carregam no ventre um tambor. Pinturas do início do século XII já retratam o chodaikô, do tipo gongo, e o tandôdaiko, com o corpo mais achatado. Todos os registros comprovam que o taikô está presente na história da música japonesa há quase 1.500 anos. O taikô é utilizado quase sempre em festividades xintoistas, mas eventos budistas também empregam o taikô.

O tipo de taikô mais utilizado em apresentações no Brasil é o Chodôdaiko. São taikôs feitos com tronco de madeira cavada. Geralmente medem 45 a 60 cm de diâmetro, mas podem chegam a 1,50m. Com a escassez crescente de madeiras nobres, os preços de um taikô ficaram muito elevados. Um grande chodôdaiko pode valer tanto quanto um Rolls Royce, e mesmo um de tamanho pequeno pode custar o preço de um veículo popular. Nos últimos tempos os corpos do taikô são confeccionados com uma resina de uretano, com custo mais reduzido.

O maior taikô é o Okedaiko, que utiliza a pele bovina, tem forma de tonel e é amarrado com barbante. Pode ter mais de três metros de diâmetro e pesar mais de uma tonelada. O okedaiko pode ser executado por até dez pessoas, utilizando-se de baquetas.

fonte:www.culturajaponesa.com.br





fotos: o. guisoni

Toda despedida é falsa

(trágico é que alguns acreditam)


Tensionados, não existe escolha, existe precipitação. Alguém pedirá para sair.

Estamos os dois adoecidos, nenhum tem condições para ajudar o outro. Seu jeito de ser cuidada é diferente do meu jeito de ser cuidado.

Vou remando as bordas da camisa. Minha lentidão é despedida. Quando todo gesto se torna relevante por ser irrelevante. Não desloco os cotovelos porque os músculos argumentam que não vale a pena. Demoro nos movimentos singelos como levantar a xícara de café. Ele já esfriou e não sofro com isso. Não sofro com coisa alguma. O maior sofrimento é não sofrer. É quando não há nem mais ânimo para sofrer. E conhecemos a apatia da dor, um cansaço inacreditável e resta a canção sem a letra, resta a vontade do poema e sua desistência. O pensamento vem e apago. Não me interessa apanhá-lo. Passo a ser meu único leitor. Não tenho esperança de que ficará emocionada, que me avisará que foi um susto desnecessário e me acalmará para dormir em seguida.

Maravilho-me com seus cílios e não comento. Maravilho-me com suas pernas brancas, os joelhos lisos, e não sopro nada. Maravilho-me com sua boca graúda e não me inclino a acompanhá-la. Beijar é andar de lado no cavalo.

Permaneço sentado nas mãos. Solteiro dos anéis que não vieram. Se chover, então, vidro-me na varanda sem mexer o tronco. Torço para que a chuva demore. Não suportaria os conselhos das calhas.

Sou a completa anulação de sentido para me movimentar. Espero que pule da dor para me abraçar. Que tome uma atitude, que não me magoe. Mas sei que o entusiasmo é frágil. Podemos supor que estamos recuperados e logo afundaremos novamente no delírio. A cabeça nos engana e as pernas não mandam os últimos boletins.

Repare que o soro fala devagar como a gente nesta hora. Tão devagar que engolimos de volta a pronúncia, o soluço, o sim.

Acordei desejando mandar flores. O mesmo arranjo que enviei na primeira vez. Iria colocar junto sua canção de Ella Fitzgerald. Recuei de bobo. Achei que não mudaria nossas dificuldades.

Pensei em buscar um prato bem bonito do seu restaurante favorito e deixar em seu trabalho, já que não que terá tempo para almoçar. Mas retrocedi de novo. Achei que não contaria com tempo para agradecer.

Acovardo-me de gentilezas. Falta a esperança de que serão compreendidas. Ou que me procure com meus apelidos pelo caminho salteado do jardim.

Chegamos ao caroço, onde os temperamentos se definem, onde não há mais a concessão dos primeiros meses. A carência é um caroço. Por isso é duro atravessar. Não é mais aquela facilidade da polpa, de atravessar com o embalo do suco. É agora que seremos pedras num canto ou seremos raízes.

Arrebento-me de arroubos, arrebatamentos. Mas a realidade é longe de minha casa. Não há amigo que me transmita o que tenciono escutar, que arranque o pessimismo poroso das folhas. Anseio por algum médico que nos avise que temos poucos meses de vida; é o suficiente para reunir as forças.

Você é intensa, mas sua intensidade não costura para fora. Eu sou intenso, mas minha intensidade costura para fora antes mesmo de comprar os tecidos. Sei que não entendo nem metade do que já sentiu por mim. Por absoluta ausência de comunicação. Sei que não entende nem metade do que sinto por você. Por absoluta ausência de paciência. Eu preciso ouvir, você não precisa falar, nos amamos desinformados.

Maldita chuva que começou. Os relâmpagos são gravatas azuis em terno escuro. A sobriedade das sobras. A chuva sempre está vestida para velório. A chuva lava bagunçando. Deixa tudo mais sujo. Muito mais verdadeiro.

Pretendia dizer que

A solidão é cheia de boas intenções.

(Fabrício Carpinejar)

quinta-feira, 10 de junho de 2010




[REFLEXÕES SOBRE A ARTE]


SÓ A ARTE É ÚTIL. Crenças, exércitos, impérios, atitudes - tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura.

*

A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidos, como se sente que são.
O essencial na arte é exprimir; o que se exprime não tem importância.

*

A finalidade da arte não é agradar. A finalidade da arte é elevar.


Fernando Pessoa- em obras em prosa


foto: o. guisoni





Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais.

Casa no Campo
(Elis Regina)

foto: o. guisoni

terça-feira, 8 de junho de 2010



Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus.

(Ruy Belo)

foto: o. guisoni

O retrato fiel



Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!


Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.


Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;


naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.


Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.


Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.

(Gilka Machado)

foto: o. guisoni

sexta-feira, 4 de junho de 2010




Ser Brotinho (Paulo Mendes Campos)


Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.

Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.

É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.

É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.

Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.

É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.

texto extraído do livro: "As cem melhores crônicas brasileiras"

foto: o. guisoni

quinta-feira, 3 de junho de 2010



Correspondências

A Natureza é um templo vivo em que os pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.


Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la muit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme de chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.


CHARLES BAUDELAIRE, em "As Flores do mal"

foto: o. guisoni

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A janela...



Sabe aquela moça que abria a janela?
Ela sempre sorria!
Mesmo que não fosse bom o dia.
Mesmo se chovia, e a água escorria...
Era seu dia preferido!
Sabe aquela moça que abria a cortina?
Descortinava o dia.
Mesmo nublado e abafado.
Ela sempre sorria.
Aquela moça de longos cabelos alados...
Que sempre via o que se estava escondido!
Que sempre escondia o que via!
Guardava no olhar, pra depois revelar...
Ela acreditava sempre em alguma coisa boa.
Ela acreditava que sempre sorriria.
Mas a vida, um dia, apareceu sombria.
A moça queria sorrir, mas não conseguia,
e seu peito se debatia, sofria...
Mas ela continuou abrindo a janela, todo dia esperando...
Fosse sol ou chuva que viria, ela sabia;
a beleza existia.
Na clara claridade do sol, nas gotas enevoadas da chuva;
quando tudo era cor!
Então a moça abriu a janela e descobriu:
A janela era ela!

(Vall Duarte)

foto: o. guisoni

PESSOA
(Crônica - Ferreira Gullar)



ALBERTO CAEIRO - Uma rosa.

FERNANDO PESSOA- É tão bela que até parece existir.

CAEIRO - O que em ti pensa está sentindo, e tu pensas o que desejas sentir. A rosa existe.

PESSOA - A rosa, que vejo, existe... Fito-a. O que em mim sente está pensando: existe?

CAEIRO - É o mal dos metafísicos. Exigem que as coisas tenham sentido para existir. Transformam o ser numa idéia e negam a existência pelo raciocínio.

RICARDO REIS - Enquanto vocês discutem, a rosa murcha. Prefiro colhê-la e lhe aspirar o perfume.

ÁLVARO DE CAMPOS - Ou não colhê-la... A idéia de colher a rosa é melhor que o ato de colher a rosa. E se basta. E tanto um quanto o outro não são nada.

CAEIRO - É como dizia. Os metafísicos buscam o sentido oculto das coisas, mas o sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum. As coisas são, e é o bastante.

PESSOA - Por um instante acredito no que dizes. Aceito-o mesmo... Mas, não! é um pensamento bom para se ter à hora da morte.

CAMPOS - Toda hora é a hora da morte. Que pensas tu que fazes a todo instante senão morrer? Se toda hora é a hora da morte e nenhum pensamento nos satisfaz, é porque nenhum pensamento vale a pena. Exceto este.

REIS - Tudo o que desespera está errado. Os deuses nos ensinam a impassibilidade. Se a rosa é bela, colhâmo-la, e a nossa vida terá tido um pouco mais de bebeza e de perfume.
De que vale pensar na morte, se isso não a elimina?
Tenhâmo-la como certa e vivamos cada minuto como se fosse o último.

PESSOA - Como seria bom acreditar que este minuto é o último. Ou este, ou este...

CAMPOS - Espere, você contou três minutos e nem se passou um ainda. Esperemos um pouco, talvez ao fim deste minuto tudo se acabe.

PESSOA - Um minuto é tempo demais. Viver intensamente todo um minuto é quase o mesmo que a vida inteira.
O que me manterá o mesmo por sessenta segundos?

REIS - Joguemos um pouco.

PESSOA - Não posso. Joguem vocês.

CAEIRO - Não sei jogar xadrez. As plantas não jogam e eu, como as plantas, não preciso escapar de mim.

PESSOA - Ninguém escapa de si, porque cada um é o prisioneiro e a prisão. Como seria bom poder deixar quem sou como se deixa um cárcere, e ir para o sol.

CAMPOS - É, mas quem pensa no sol não tem o sol. O sol que tens é esse que imaginas e que perderias quando saísses à rua e o sol da rua te batesse na pele.

foto: o. guisoni

terça-feira, 1 de junho de 2010

saudade...


Saudades de tudo!

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede de volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo..."

(João Guimarães Rosa)

foto: o. guisoni