
Em 1953 Cecília Meireles fez uma viagem à Europa em companhia de seu marido, professor Heitor Grillo. A viagem começou por Roma, Cecília chegou de avião no começo de março e sua excursão foi até o final de abril. A poetisa seguiu o seguinte itinerário: Roma – Nápoles – Pompéia – Sorrento – Salerno – Roma – Florença – Pistoia – San Gimignano – Siena – Pisa – Veneza – Milão. A maior parte da viagem foi feita de automóvel com seus amigos (BIZZARRI, 1968, p. 5).
Nesta viagem Cecília escreveu quarenta poemas nas salas e quartos de hotéis, durante o curto período em que permaneceu naquele país. Estes poemas foram traduzidos para o italiano por Edoardo Bizzarri na edição bilíngüe feita pelo Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro em 1968. De todos há um que chama a atenção pela simplicidade e delicadeza, características típicas da poetisa: o poema “Mensagem” – “Messaggio” – (MEIRELES, 1968, p. 112). Chama a atenção não só pela simplicidade, mas porque foge do estereótipo e dos rótulos que foram aplicados a Cecília, como por exemplo, a de que ela é uma poetisa que apenas escreve sobre a efemeridade da vida e a fugacidade do tempo (AZEVEDO FILHO, 1970, p. 35; 39; 49).
Neste poema ela fala sobre um possível e curioso acontecimento em sua passagem pela cidade de San Gimignano, província de Siena, na Toscana. Esse acontecimento, para qualquer outra pessoa, seria banal, mas com Cecília, criatura sensível que era, ganhou uma poeticidade digna da criação de um poema do qual a própria poetisa diz guardar muita saudade:
Por Fabiano da Silva Costa
(UNESP-Assis)
Mensagem
Agora tenho saudade daquele anônimo guia
que na Itália me acompanhou a uma festa popular.
Mulheres robustas gritavam com força: "Ecco, ecco,
é Giuseppe!"
"No, si, no, si..."
quando o cantor apareceu, com roupas do século 14.
O guia, meigo e triste, delicadamente sentou-se a
meu lado,
verificou se a minha cadeira estava firme,
depois, fitou com melancolia o espetáculo no pátio do castelo.
Então delicadamente, lhe estendi um saco de balas,
para que se servisse.
Mas docemente levou a palma da mão ao queixo,
e murmurou com extrema gentileza: "No, grazie..."
e, mais baixinho, acrescentou "que tinha um dente furado, e doía muito..."
Vai para esse guia sincero,
perdido entre as tôrres de São Giminiano,
a minha tenra, humana saudade:
- nunca ninguém me fêz tão pura e simples confidência.
Messaggio
Adesso ho nostalgia di quell'anonima guida
che in Itália m'accompagnò a una festa popolare.
Donne robuste gridavano forte: "Ecco, ecco, è Giuseppe!"
"No, si, no, si..."
quando ill cantante apparve, com vestido del secolo XIV.
La guida, gentile e triste, delicatamente, mi sedette vicino,
s'accertò che la mia sedia fosse ben ferma,
poi, fissò con malinconia lo spettacolo, nel cortile del castello.
Allora, delicatamente, gli porsi il sacchetto delle caramelle,
perchè se servisse,
Ma dolcemente portò la palma della mano al mento,
e mormorò con estrema gentilezza: "No, grazie..."
e, più basso, aggiunse "che avera un dente cariato,
e gli faceva molto male..."
Vada a quella guida sincera,
perduta tra le torri San Gimignano,
la mia tenera, umana nostalgia
- mai nessuno mi fece cosi pura e semplice confidenza.
versão Italiana, Edoardo Bizzarri
(do livro Cecilia Meireles - Poemas Italianos, São Paulo, Instituo Cultural Italo Brasileiro)
















