A HISTÓRIA DA ARTE
“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como "dim lands of peace" (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.
Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.
Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.
Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.
POUND, Ezra. 'Arte da Poesia, Ensaios'. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.
“Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”. – Henri Cartier-Bresson
domingo, 28 de fevereiro de 2010
o mundo da solidão...

A solidão da solidão. Por que esta redundância? Por que esta estranha tautologia? Por que esta insistência por demais evidente? É que na Solidão há mais do que a solidão. Ela traz consigo um peso infinitamente doloroso de esperança desesperada, de amor recusado, de condenção ao solipsismo execrável, de fracasso constatado. A solidão vagueia na amargura. Se há um sabor amargo, é o dela! Ruptura interior cuja profundidade não há como medir. Prisão do coração. Isolamento do espírito. Opacidade insuperável do corpo. Recaída do humano naquilo que de mais necessário e talvez de melhor existe. Muito estranho, este mistério da solidão. Decifrar este mistério equivale a aferir a dimensão justa da solidão injusta. Desvendar este mistério é mergulhar no fundo de si mesmo e acompanhar os caminhos que nascem da solidão e a ela conduzem. Compreende-se, pois que colocar o problema da solidão é tentar apreender o que nela existe de inenarrável. Impõe-se a palavra, para reencontrar a explosão da existência que se esmigalha sob um peso que esmaga.
Um poeta inglês escreveu, com uma perspicácia só possível à linguagem poética:
"Lonely we are though never left alone". ("Estamos solitários, se bem que nunca nos deixem sós".)
Texto extraído do livro: Crônica da Solidão (Charbonneau)
foto: o. guisoni

A solidão da solidão. Por que esta redundância? Por que esta estranha tautologia? Por que esta insistência por demais evidente? É que na Solidão há mais do que a solidão. Ela traz consigo um peso infinitamente doloroso de esperança desesperada, de amor recusado, de condenção ao solipsismo execrável, de fracasso constatado. A solidão vagueia na amargura. Se há um sabor amargo, é o dela! Ruptura interior cuja profundidade não há como medir. Prisão do coração. Isolamento do espírito. Opacidade insuperável do corpo. Recaída do humano naquilo que de mais necessário e talvez de melhor existe. Muito estranho, este mistério da solidão. Decifrar este mistério equivale a aferir a dimensão justa da solidão injusta. Desvendar este mistério é mergulhar no fundo de si mesmo e acompanhar os caminhos que nascem da solidão e a ela conduzem. Compreende-se, pois que colocar o problema da solidão é tentar apreender o que nela existe de inenarrável. Impõe-se a palavra, para reencontrar a explosão da existência que se esmigalha sob um peso que esmaga.
Um poeta inglês escreveu, com uma perspicácia só possível à linguagem poética:
"Lonely we are though never left alone". ("Estamos solitários, se bem que nunca nos deixem sós".)
Texto extraído do livro: Crônica da Solidão (Charbonneau)
foto: o. guisoni
A televisão
(letra & música de Chico Buarque)
O homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas prá casa não vai não
Em casa a roda já mudou
Que a moda muda
A roda é triste
A roda é muda
Em volta lá da televisão...
No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções
O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões...
O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não
A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão...
No céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Prá mostrar evoluções
O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões...
Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso
Quem quer choro
Não faz mais esforço não
E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão...
O homem da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões
No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões...
O homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas prá casa não vai não
Em casa a roda já mudou
Que a moda muda
A roda é triste
A roda é muda
Em volta lá da televisão...
No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções
O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões...
O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não
A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão...
No céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Prá mostrar evoluções
O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões...
Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso
Quem quer choro
Não faz mais esforço não
E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão...
O homem da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões
No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões...
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