quarta-feira, 2 de junho de 2010

A janela...



Sabe aquela moça que abria a janela?
Ela sempre sorria!
Mesmo que não fosse bom o dia.
Mesmo se chovia, e a água escorria...
Era seu dia preferido!
Sabe aquela moça que abria a cortina?
Descortinava o dia.
Mesmo nublado e abafado.
Ela sempre sorria.
Aquela moça de longos cabelos alados...
Que sempre via o que se estava escondido!
Que sempre escondia o que via!
Guardava no olhar, pra depois revelar...
Ela acreditava sempre em alguma coisa boa.
Ela acreditava que sempre sorriria.
Mas a vida, um dia, apareceu sombria.
A moça queria sorrir, mas não conseguia,
e seu peito se debatia, sofria...
Mas ela continuou abrindo a janela, todo dia esperando...
Fosse sol ou chuva que viria, ela sabia;
a beleza existia.
Na clara claridade do sol, nas gotas enevoadas da chuva;
quando tudo era cor!
Então a moça abriu a janela e descobriu:
A janela era ela!

(Vall Duarte)

foto: o. guisoni

PESSOA
(Crônica - Ferreira Gullar)



ALBERTO CAEIRO - Uma rosa.

FERNANDO PESSOA- É tão bela que até parece existir.

CAEIRO - O que em ti pensa está sentindo, e tu pensas o que desejas sentir. A rosa existe.

PESSOA - A rosa, que vejo, existe... Fito-a. O que em mim sente está pensando: existe?

CAEIRO - É o mal dos metafísicos. Exigem que as coisas tenham sentido para existir. Transformam o ser numa idéia e negam a existência pelo raciocínio.

RICARDO REIS - Enquanto vocês discutem, a rosa murcha. Prefiro colhê-la e lhe aspirar o perfume.

ÁLVARO DE CAMPOS - Ou não colhê-la... A idéia de colher a rosa é melhor que o ato de colher a rosa. E se basta. E tanto um quanto o outro não são nada.

CAEIRO - É como dizia. Os metafísicos buscam o sentido oculto das coisas, mas o sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum. As coisas são, e é o bastante.

PESSOA - Por um instante acredito no que dizes. Aceito-o mesmo... Mas, não! é um pensamento bom para se ter à hora da morte.

CAMPOS - Toda hora é a hora da morte. Que pensas tu que fazes a todo instante senão morrer? Se toda hora é a hora da morte e nenhum pensamento nos satisfaz, é porque nenhum pensamento vale a pena. Exceto este.

REIS - Tudo o que desespera está errado. Os deuses nos ensinam a impassibilidade. Se a rosa é bela, colhâmo-la, e a nossa vida terá tido um pouco mais de bebeza e de perfume.
De que vale pensar na morte, se isso não a elimina?
Tenhâmo-la como certa e vivamos cada minuto como se fosse o último.

PESSOA - Como seria bom acreditar que este minuto é o último. Ou este, ou este...

CAMPOS - Espere, você contou três minutos e nem se passou um ainda. Esperemos um pouco, talvez ao fim deste minuto tudo se acabe.

PESSOA - Um minuto é tempo demais. Viver intensamente todo um minuto é quase o mesmo que a vida inteira.
O que me manterá o mesmo por sessenta segundos?

REIS - Joguemos um pouco.

PESSOA - Não posso. Joguem vocês.

CAEIRO - Não sei jogar xadrez. As plantas não jogam e eu, como as plantas, não preciso escapar de mim.

PESSOA - Ninguém escapa de si, porque cada um é o prisioneiro e a prisão. Como seria bom poder deixar quem sou como se deixa um cárcere, e ir para o sol.

CAMPOS - É, mas quem pensa no sol não tem o sol. O sol que tens é esse que imaginas e que perderias quando saísses à rua e o sol da rua te batesse na pele.

foto: o. guisoni