sábado, 27 de fevereiro de 2010

daí você chegou, e...

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás... Seremos...

(Pablo Neruda)

foto: o. guisoni

A Esperança




Injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena,
eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos.
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior...
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos... Amo também os bichos -vós os criais,
em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto,
por ele, arrancaria meu próprio fígado:
Toma, querido, sem cerimônia, come.

(Vladmir Maiakóvski)

foto: o. guisoni

"A natureza detesta o vazio."


(Pascal)

foto: o. guisoni










Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
delicious...

foto: o. guisoni

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

(José Saramago)

foto: o. guisoni
como a doce maçã...



Como a doce maçã que rubra, muito rubra, lá em cima, no alto do mais alto ramo os colhedores esqueceram; não, não esqueceram, não puderam atingir."

(Safo)


foto: o. guisoni

Prezados Senhores:

Todo progresso implica numa mudança!
Quando apareceu o FAX (para não citar outras novidades) dissemos que o Correio ia acabar assim como o telefone. Quando apareceu o Polaroid, a fotografia ia acabar. Quando apareceu o celular com fotografia e cinema, tudo ia acabar; só ficaria o celular.
Bem; o novo século ainda não acabou...
Será que vai até o fim? ou teremos um outro mundo?
Impossivel prognosticar...
No entanto, reparem bem: o Livro continua.
E continua com mudanças: pocket-preços mais em conta - ilustrações excelentes. Enfim; muito pelo contrário: acho que o livro é um apoio permanente, certamente não mais o unico, mas aí está: cada vez mais editoras, livrarias, leitura.
Creio que é um apoio à civilização, sem excluir nenhum outro. É uma constante.
E assim permanecerá!
Esperemos!

THOMAZ FARKAS ( Fotógrafo e documentarista, engenheiro e presidente do conselho da Cinemateca Brasileira)

(foto: da própria capa do livro) o. guisoni