terça-feira, 27 de julho de 2010



A menina Transparente

Eu apareço disfarçada de todas as coisas...
Posso ser vista no pôr-do-sol ou no nascer dele.
Eu posso estar através da janela,
posso ser vista na asa da gaivota
ou pelo ar que passa por ela.

Muitos me vêem no mar,
outros na comida da panela.
Posso aparecer para qualquer ser,
desde ele pequenininho;
se tratar de mim como eu merecer.

Uns me pegam pra criar em livro,
outros me botam num vestido lindo,
cheio de notas musicais:
fico morando dentro da música.

Tenho muitas mães e digo mais:
sou uma criança com muitos pais.
Tem gente que diz que eu
nasço dentro da pessoa,
e faço ela olhar diferente,
pra tudo que todos olham,
mas não notam.

Às vezes apareço tão transparente e
de mansinho
que mais pareço um Gasparzinho.
Tem gente que nunca percebe que estou ali,
não cuidam de mim,
não me exercita.
Eu fico com um laço de fita
que nunca teve um rabo de cavalo dentro.
Eu fico como uma planta de dentro de casa
que ninguém molha, conversa nem nada.

Quem me adivinha logo dentro dele,
quem percebe que estou ali diariamente,
quem anda comigo e com meu gingado,
fica com o coração inteligente
e com o pensamento emocionado.

A esse que eu dou a mão,
eu vou com esse pra todo lado:
aniversários, passeios, sono, cama, biblioteca,
casa, escola;
estou com esse a toda hora.

Tem gente que me vê muito na beleza da flor,
no mato, na primavera e no calor.
É que eu ando muito mesmo.

Eu posso até voar!
Por isso que me vêem no céu, nas estrelas, nos planetas
e nas conversas das crianças.
Quem anda comigo tem muita esperança.

Todo mundo que me tem
pode me usar e me espalhar por aí.
Quem gosta muito de mim,
depois que me conhece,
junta gente em volta como se eu fosse uma festa.
Me usam até em palestras!
Me acordam lá do papel.

Ih! Eu tinha me esquecido de dizer
que, quando a pessoa começa a me
escrever,
eu fico morando no papel.
Toda vez que a pessoa me lê para dentro
eu passo para dentro dele.
Toda vez que alguém me lê para fora, em voz alta,
como se eu fosse uma música,
eu passo pata dentro de todo mundo que me vê;
eu posso trazer alento a todo mundo que me escuta.

Tem gente que me pega só numa fase,
como se eu fosse uma gripe boa,
e como se dessa boa gripe ficasse gripada.
Quero dizer...
eu dou muito no coração de gente apaixonada.

Minha palavra é do sexo feminino,
brinco com menino e com menina,
fico com a pessoa até ela ficar
velhinha,
inclusive de bengala;
e depois que ela morre,
faço ela ficar viva
toda vez que por mim é lembrada.

Às vezes eu sou sapeca,
às vezes eu sou quieta,
mas todo mundo que olha através de mim
é poeta.

Veja se eu sou esta
que fala dentro de você.
Eu não posso escrever
porque não sou poeta:
sou a poesia!
Tente agora fazer um verso.
Se eu fosse você, faria.

(Elisa Lucinda)

do livro:Palavras de encantamento


foto: o. guisoni