domingo, 28 de fevereiro de 2010

A HISTÓRIA DA ARTE


“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como "dim lands of peace" (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.

Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.

Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.

Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.

Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.




POUND, Ezra. 'Arte da Poesia, Ensaios'. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.
o mundo da solidão...

A solidão da solidão. Por que esta redundância? Por que esta estranha tautologia? Por que esta insistência por demais evidente? É que na Solidão há mais do que a solidão. Ela traz consigo um peso infinitamente doloroso de esperança desesperada, de amor recusado, de condenção ao solipsismo execrável, de fracasso constatado. A solidão vagueia na amargura. Se há um sabor amargo, é o dela! Ruptura interior cuja profundidade não há como medir. Prisão do coração. Isolamento do espírito. Opacidade insuperável do corpo. Recaída do humano naquilo que de mais necessário e talvez de melhor existe. Muito estranho, este mistério da solidão. Decifrar este mistério equivale a aferir a dimensão justa da solidão injusta. Desvendar este mistério é mergulhar no fundo de si mesmo e acompanhar os caminhos que nascem da solidão e a ela conduzem. Compreende-se, pois que colocar o problema da solidão é tentar apreender o que nela existe de inenarrável. Impõe-se a palavra, para reencontrar a explosão da existência que se esmigalha sob um peso que esmaga.

Um poeta inglês escreveu, com uma perspicácia só possível à linguagem poética:

"Lonely we are though never left alone". ("Estamos solitários, se bem que nunca nos deixem sós".)



Texto extraído do livro: Crônica da Solidão (Charbonneau)


foto: o. guisoni




exceto no céu não há cercas na frente...





fotos: o. guisoni

A televisão

(letra & música de Chico Buarque)

O homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas prá casa não vai não
Em casa a roda já mudou
Que a moda muda
A roda é triste
A roda é muda
Em volta lá da televisão...

No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções
O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões...

O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não
A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão...

No céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Prá mostrar evoluções
O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões...

Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso
Quem quer choro
Não faz mais esforço não
E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão...

O homem da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões
No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

daí você chegou, e...

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás... Seremos...

(Pablo Neruda)

foto: o. guisoni

A Esperança




Injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena,
eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos.
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior...
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos... Amo também os bichos -vós os criais,
em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto,
por ele, arrancaria meu próprio fígado:
Toma, querido, sem cerimônia, come.

(Vladmir Maiakóvski)

foto: o. guisoni

"A natureza detesta o vazio."


(Pascal)

foto: o. guisoni










Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
delicious...

foto: o. guisoni

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

(José Saramago)

foto: o. guisoni
como a doce maçã...



Como a doce maçã que rubra, muito rubra, lá em cima, no alto do mais alto ramo os colhedores esqueceram; não, não esqueceram, não puderam atingir."

(Safo)


foto: o. guisoni

Prezados Senhores:

Todo progresso implica numa mudança!
Quando apareceu o FAX (para não citar outras novidades) dissemos que o Correio ia acabar assim como o telefone. Quando apareceu o Polaroid, a fotografia ia acabar. Quando apareceu o celular com fotografia e cinema, tudo ia acabar; só ficaria o celular.
Bem; o novo século ainda não acabou...
Será que vai até o fim? ou teremos um outro mundo?
Impossivel prognosticar...
No entanto, reparem bem: o Livro continua.
E continua com mudanças: pocket-preços mais em conta - ilustrações excelentes. Enfim; muito pelo contrário: acho que o livro é um apoio permanente, certamente não mais o unico, mas aí está: cada vez mais editoras, livrarias, leitura.
Creio que é um apoio à civilização, sem excluir nenhum outro. É uma constante.
E assim permanecerá!
Esperemos!

THOMAZ FARKAS ( Fotógrafo e documentarista, engenheiro e presidente do conselho da Cinemateca Brasileira)

(foto: da própria capa do livro) o. guisoni

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010



pasto urbano







foto: oli. guisoni
Impaciência (duas variações sobre o mesmo tema) - João Guimarães Rosa


I

eu queria dormir
longamente...
(um sono só)
para esperar assim
o divino momento que eu pressinto,
em que hás de ser minha...

mas...
e se essa hora
não devesse chegar nunca?...
se o tempo
como as outras cousas todas,
te separa de mim?!...

então...
ah!, então eu gostaria
que o meu sono,
friíssimo e sem sonhos
(um sono só)
não tivesse mais fim...


II

se eu pudesse correr pelo tempo afora,
vertiginosamente,
futuro adiante,
saltando tantas horas tediosas,
vazias de ti,
e voar assim até o momento de todos os momentos,
em que hás de ser minha!...

mas...
e se esse minuto faltar
nas areias de todas as ampulhetas?...
e se tudo fosse inútil:
a maquina de Wells,
as botas de sete léguas do Gigante?!...

então...
ah!, então eu gostaria
de desviver para trás, dia por dia,
para parar só naquele instante,
e nele ficar, eternamente, prisioneiro...
(Tu sabes, aquele instante em que sorrias
e me fizeste chorar...)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010



História de uma gata
versão:Chico Buarque



Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram

O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé... de gato
Me diziam todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vai cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora, senhorio
Felino, não reconhecerás

De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria
Mas agora o meu dia-a-dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora, senhorio
Felino, não reconhecerás

foto: oli. guisoni

quem muito agrada, desagrada

Nunca ouvi esse provérbio, acho que inventei agora mesmo. Mas você vai ver inventado ou não, não se aplica a pessoas que você conhece: Às que querem agradar a todo o preço. Então tornam-se "encantadoras". Procuram adivinhar os mínimos desejos dos outros. Procuram elogiar de qualquer modo. Começam também a mostrar que fazer sacrifícios a cada momento. Esse tipo encantador pesa na alma dos outros. Em uma palavra: desagrada.
Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficarem à vontade.

(Clarice Lispector)

pode-se amar sem admirar?

Pode-se dar amor natural, comum. Pode-se ter pena da pessoa ou ser fisicamente atraída por ela, e enganar-se pensando que essa reação é amor. Mas para que o amor real exista é preciso que você admire alguma coisa nele ou nela. Theodore Reik acha que o "amor só é possível quando você atribui um valor mais alto à pessoa do que a você, quando você vê nela ou nele uma personalidade que, pelo menos em algum sentido, é superior à sua".

(Clarice Lispector)
mundo da lua...












"Do que não sei o nome eu guardo semelhanças..."



(Manoel de Barros)

foto: o. guisoni

Mais uma vez
(Renato Russo)

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
Doidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende

Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança

é claro que o sol vai voltar amanhã...

foto: o. guisoni

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

As Rosas Não Falam - Cartola

Bate outra vez


Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim


Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim


Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai...


Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhar os meus sonhos por fim

foto: o. guisoni

...


" Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar” a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer — e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão. Melhor, claro, em certo sentido que signifíca também o pior: as mais nobres paixões são também as mais cadelas, como aquelas que enlouqueceram Adele H., levaram Oscar Wilde para a prisão ou fizeram a divina Vera Fischer ser queimada feito Joana d’Arc por não ser uma funcionária pública exemplar. "


(Caio Fernando Abreu)


foto: o. guisoni