domingo, 28 de fevereiro de 2010

o mundo da solidão...

A solidão da solidão. Por que esta redundância? Por que esta estranha tautologia? Por que esta insistência por demais evidente? É que na Solidão há mais do que a solidão. Ela traz consigo um peso infinitamente doloroso de esperança desesperada, de amor recusado, de condenção ao solipsismo execrável, de fracasso constatado. A solidão vagueia na amargura. Se há um sabor amargo, é o dela! Ruptura interior cuja profundidade não há como medir. Prisão do coração. Isolamento do espírito. Opacidade insuperável do corpo. Recaída do humano naquilo que de mais necessário e talvez de melhor existe. Muito estranho, este mistério da solidão. Decifrar este mistério equivale a aferir a dimensão justa da solidão injusta. Desvendar este mistério é mergulhar no fundo de si mesmo e acompanhar os caminhos que nascem da solidão e a ela conduzem. Compreende-se, pois que colocar o problema da solidão é tentar apreender o que nela existe de inenarrável. Impõe-se a palavra, para reencontrar a explosão da existência que se esmigalha sob um peso que esmaga.

Um poeta inglês escreveu, com uma perspicácia só possível à linguagem poética:

"Lonely we are though never left alone". ("Estamos solitários, se bem que nunca nos deixem sós".)



Texto extraído do livro: Crônica da Solidão (Charbonneau)


foto: o. guisoni